Família

25/06/2019 08h00

Toxoplasmose na Gestação

Um problema grave de saúde pública que precisa ser melhor compreendido.

Por Lais Rodrigues Gerzon

Pixabay
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TOXOPLASMOSE NA GESTAÇÃO

No dia 19 de abril a cidade de Santa Maria, completou um ano da confirmação do surto de toxoplasmose. Infelizmente ainda não há conclusões sobre o que espalhou a doença na cidade, porém a principal suspeita para essa contaminação foi a água. Até o momento 900 casos foram registrados.

A ocorrência passou a ser conhecida como o maior surto mundial da doença – o município Santa Isabel do Ivaí, no estado do Paraná era o recordista até maio de 2018, com 426 casos.

O QUE É TOXOPLASMOSE?

A toxoplasmose é uma zoonose causada pelo Toxoplasma gondii (T. gondii) que apresenta ciclo evolutivo com três formas de infecção: taquiozóitos (ocorre na fase aguda da doença); bradizóitos (encontrado em cisto teciduais) e oocisto (encontrado nas fezes dos gatos).

A infecção humana ocorre pela ingestão de carnes contaminadas, em verduras e frutas, água contaminada ou solo com fezes de gatos, por transplante de órgãos de um doador infectado e pela transmissão transplacentária (causando a toxoplasmose congênita).

A toxoplasmose é uma das infecções mais graves durante a gravidez. No Brasil, a incidência de toxoplasmose congênita varia entre 4 a 10 casos para cada 10 mil nascidos vivos. No Rio Grande do Sul um estudo de 2016 mostrou incidência de 5 em 10 mil nascidos vivos, enquanto que um ano depois outro estudo realizado no Sul do Brasil descreve uma incidência de 4,8 em mil gestantes.

A investigação da toxoplasmose é recomendada para todas as gestantes suscetíveis, isto é, que apresentam antes da gestação, imunoglobulina G (IgG) negativo ou não conhecido. Os anticorpos IgG e imunoglobulina M (IgM) devem ser solicitados no primeiro trimestre ou na primeira consulta do pré-natal e repetidos a cada dois meses, se o primeiro exame for IgG e IgM negativos. A periodicidade dessa investigação deve ser realizada pelo menos no primeiro e terceiro trimestres. Logo o diagnóstico é baseado, principalmente, em exames de sangue.

A transmissão e a gravidade das complicações são inversas à idade gestacional. A taxa de transmissão ao feto é 14% no primeiro trimestre e 60% no terceiro trimestre. Porém a gravidade, é maior nas infecções adquiridas no início da gravidez. A taxa de transmissão varia entre 50% a 60% em mães não tratadas e 20% a 30% nas que receberam tratamento durante o período gestacional.

A infecção se ocorrer antes das 18 semanas de gestação, o tratamento inicial é com espiramicina. Enquanto que para a gestação com 18 semanas ou mais o tratamento é realizado com o sulfadiazina, pirimetamina e ácido folínico. A infecção aguda na gestante frequentemente é assintomática. Quando há presença de sintomas, pode se destacar sudorese, cefaleia, aumento do tamanho do fígado e do baço, calafrios, febre, mialgia, doença ocular. A manifestação mais comum e específica da infecção aguda é o aumento do tamanho dos linfonodos de localização cervical, bilateral e simétrica.

O bebê pode apresentar micro ou macrocefalia, paralisia de nervos cranianos, hipotonia, convulsões, alterações globais, déficit intelectual, coriorretinite, perda auditiva, icterícia, dentre outras. Nos exames ultrassonográficos que sugerem infecção fetal são intracranianos: calcificação e dilatação ventricular, geralmente bilateral e simétrica. É possível analisar alterações da ecotextura hepática e esplênica fetal, hidrocefalia e ascite.

COMO PREVENIR A TOXOPLASMOSE?

  1. Higienização das mãos antes das refeições ou após manusear o lixo, ao manipular os alimentos e contato com os animais;
  2. Utilizar luvas ao manipular carnes cruas;
  3. Evite o contato com a terra ou solo, mas se houver utilizar luvas e higienizar as mãos;
  4. Água deve ser filtrada ou fervida. Os reservatórios devem estar bem fechados;
  5. Higienizar legumes, verduras e frutas, mas com os seguintes cuidados;
  6. Selecionar os alimentos e retirar as partes sem condições adequadas;
  7. Em água corrente, lavar os alimentos separadamente;
  8. Desinfetar por meio da imersão em solução clorada por dez minutos: diluir uma colher de sopa de água sanitária em um litro de água;
  9. Novamente, lavar separadamente os alimentos;
  10. Manter os alimentos sob refrigeração até a hora de consumo.
  11. O Ministério da Saúde e o Centro Estadual de Vigilância em Saúde do RS sugerem que a carne deve ser congelada a pelo menos -15ºC, por aproximadamente três dias, no freezer. A recomendação mais conservadora é que a carne deve ser congelada pelo menos -18º C, por durante sete dias;
  12. Sempre fazer a higienização dos utensílios e superfícies de cozimento após preparar os alimentos,
  13. Evitar carnes, malpassadas, malcozidas ou cruas. Cozinhar a carne a pelo menos 67ºC (ponto para bem passada);
  14. Importante não consumir leite e seus derivados crus, não pasteurizados;
  15. Não consumir curadas em salmoura, ou carnes defumadas;
  16. Evitar o contato entre os alimentos crus com alimentos cozidos;
  17. Controlar as baratas, moscas, formigas e ratos e descartar o lixo e os dejetos de animais de forma correta;
  18. Cuidar o contato com cães que andam soltos (os cães podem transmitir ao sujar o seu pelo nas fezes de gato ou mesmo no solo);
  19. A alimentação do gato deve ser feita com ração;
  20. Gestantes devem evitar o contato com a caixa de areia do seu gato.  Se não for possível, ela deve limpar e trocar a areia regularmente, com o auxílio das luvas e a pá, e colocá-la no sol.
  21. Evite o contato com as fezes do gato no solo ou lixo, mas caso haja esse contato lavar as mãos de forma correta.

Diante dessa circunstância, é essencial um programa de prevenção primária para toxoplasmose, visando à aplicabilidade pelos profissionais de saúde de diversas estratégias de prevenção durante o período gestacional na primeira consulta pré-natal ou na consulta pré-concepcional. À vista disso, quando o esclarecimento é realizado, as gestantes são corresponsáveis por seu autocuidado, evitando a exposição aos fatores de risco, uma vez que o alvo visado é o bem-estar do concepto.

 

 

 

 

LAÍS RODRIGUES GERZSON é Fisioterapeuta, Pós-graduada em Motricidade Infantil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e em Fisioterapia Neurofuncional pela Faculdade Inspirar. Mestra no Programa de Pós-graduação em Saúde da Criança e do Adolescente (UFRGS). Atualmente Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Saúde da Criança e do Adolescente (UFRGS)

 

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